Certo dia, procurei uma operadora de telefonia:
- Olá, quero um celular.
- Pois não, senhora. Sua identidade e o comprovante de residência fixa por favor.
- Comprovante de residência fixa? Tenho não, senhor…
Foi aí que tudo começou…
Pense bem: Não é contraditório, em tempos de vida mobile, uma operadora de celular exigir um comprovante de residência fixa só para vender um celular “móvel”? Em tempos com tanta gente andarilha, gente buscando a quebra de fronteiras e até gente “vendendo” um mundo “sem fronteiras”, ainda me surpreende termos que pagar adicional por uma ligação DDD! Eu demorei para ter um comprovante de residência fixa e um telefone fixo para atender todas as burocracias e, enfim, conseguir comprar o aparelho.
Mas as reflexões daquele dia me levaram muito além. Juntei com alguns estudos aqui e mais umas leituras ali e cheguei a uma definição para esse meu “estranhismo” em relação à exigência de algo fixo: é que estamos em época de “neonomadismo”. Neo o que? É… isso mesmo! Neonomadismo, isto é, “novos nômades”.
Eu achei que estava diante de um termo inédito, mas o grande achado dessa pesquisa foi um trecho do livro “A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência” de Pierry Lévy:
“nós não somos mais sedentários, somos móveis. Não nômades, pois os nômades não tinham nem terras nem cidades. Móveis: passando de uma cidade a outra, de um bairro a outro da megalópole mundial. Vivemos nas cidades ou metrópoles, que se relacionam umas com as outras, que serão (que já são) nossas verdadeiras unidades de vida, bem mais que os “países”. Ou, ainda, vivemos no campo, em casas que são como navios em pleno mar, conectados com todas as redes.”
Eu não estava enlouquecendo sozinha. O virtual nos tornou tão onipresentes que a importância de nossa posição física no mundo diminuiu. Não importa onde você está, você está em contato com o mundo.
Viajamos cada vez mais, nos deslocamos cada vez mais. Não fomos feitos para ficar parados em um lugar. Se um dia acharam que a internet e a comunicação ajudaríamos a nos fixar, digo que o que estou vendo é exatamente o contrário: empresas aéreas com um número crescente de vôos, diminuição do custo das tarifas, mais carros e mais coletivos nas ruas.
Se eu tivesse que investir em um dos setores de produção, com certeza, eu investiria na indústria dos transportes e da mobilidade. Acredito que esta será a próxima grande evolução aguardada pela humanidade.
Agora, o que seria trabalhar nesse contexto? Como eu aplicaria o que eu faço no contexto de pessoas “móveis”?
Um pessoal da Universidade de São Paulo criou um grupo de estudos chamado “nomads“, focado em como aplicar projetos de design e arquitetura ao novo universo nômade: “O Nomads tem produzido leituras combinatórias sobre a temática da habitação, relacionando-a com diferentes áreas do conhecimento e revisando continuamente os limites de seu estudo. O Nomads entende os lugares da vida quotidiana como espaços de comunicação, mediada ou não por sistemas de transmissão de informação à distância”.
Com tudo isso, acabei convidando um amigo, que estuda interfaces naturais e faz doutorado em Portugal, para escrever um artigo comigo chamado “Interfaces em época de neonomadismo”. O resultado foi a publicação do artigo em Curitiba, em setembro deste ano:
Se você quiser, pode ler o artigo completo baixando o .pdf aqui:
INTERFACES EM ÉPOCA DE NEONOMADISMO.PDF – 1.4MB



