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As vontades da hipermodernidade…

No comments // Dec 12th, 2009 // filosofia

“…não há nenhuma necessidade de invocar as regras da lógica, quer para evitar um paralogismo, quer para fazer um raciocíonio correto; o maior lógico do mundo deixa-as completamente de lado quando raciocina realmente”. (SCHOPENHAUER, o mundo como vontade e representação, livro i, )

schopenhauer-nietzsche

Esses dias, não apenas inspirada pelas aulas de filosofia antiga, mas muito mais inspirada pela busca da minha essência e alívio para as minhas vontades, voltei a ler Sartre e Schopenhauer. Sartre é autor daquela famosa frase “O inferno são os outros”, em que ele não, exatamente, condena a existência dos “outros”, mas diz que, embora os “outros” o atrapalhe no alcance de seus projetos, são eles que dão motivo à continuidade deles. Enquanto isso, Schopenhauer disserta sobre a “vontade” em sua obra mais famosa “O mundo como vontade e representação”. Ele coloca a vontade como um mal, a “causa de todo sofrimento, cadeia perpétua de aspirações sem fim, o que provoca a dor de permanecer algo que jamais consegue completar-se”.

Buscamos, nos dedicamos e queremos. Quando nossa vontade é quebrada e um projeto fracassado, sofremos. Somos um emaranhado de pessoas com vontades e projetos diferentes, e saciar todas essas vontades no mesmo universo de forma bem sucedida é impossível. Esse é o “outro” de Sartre que chega para impedir sua vontade. Essa variável e insaciabilidade da vontade que nos leva da euforia à quimera seria a força mais fundamental da natureza que se manifesta no homem e em todo o universo, segundo Schopenhauer.

Lendo sobre “O mundo como vontade e representação” (uma obra de 4 livros publicada em 1819) lembrei do filosófo francês Gilles Lipovetsky que, e em 1983, lançou a primeira edição de seu livro “L’ère du vide : Essais sur l’individualisme contemporain”,  traduzido no Brasil como “A  era do Vazio, Ensaios Sobre o Individualismo Contemporâneo”.
Lipovetsky é o grande teórico da “hipermodernidade”, termo cunhado por ele para falar do ritmo frenético e ansioso que a sociedade vive atualmente. Fazendo um paralelo com Schopenhauer, hipermodernidade seria a exacerbação das vontades, a cultura do excesso, do sempre mais e do ápice da  insaciabilidade. Para ele, houve uma hiperativação da modernidade, ou seja, não há pós-modernidade e sim, hipermodernidade: “o homem da sociedade hipermoderna é um hiperindividualista. Esse é o conceito. Mas o que significa hiperindividualismo? Que ele é mais responsável pela sua própria existência. (…) Ele sofre mais pressões do tempo, ora no trabalho, ora na vida privada. Isso faz com que o século 21 que se anuncia seja um século de novos conflitos, não tanto de lutas de classe, mas de conflitos internos, dentro desse homem.” diz Lipovetsky.

Mas se, por um lado, existe a definição pessimista de vontade feita por Schopenhauer, numa visão de que a vida não possui sentido racional e que vivemos condicionados pelas expressões da vontade instintiva e cósmica, também existe a definição de Nietzsche. Para Nietzsche, vontade é uma força positiva que incentiva e motiva o homem a enfrentar obstáculos e vencer desafios, uma forma de transcendência do ser humano:

“E sabeis… o que é pra mim o mundo”?… Este mundo: uma monstruosidade de força, sem princípio, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força… uma economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimos, ou rendimento,… mas antes como força ao mesmo tempo um e múltiplo,… eternamente mudando, eternamente recorrentes… partindo do mais simples ao mais múltiplo, do quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez… esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-a-si-próprio, sem alvo, sem vontade… Esse mundo é a vontade de potência — e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência — e nada além disso!”

Um dia fracassamos e outro dia vencemos.
Boa ou má, é a vontade que nos permite continuar.


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Olá, sou Marianne Abreu, designer de interfaces digitais e interativas, atualmente trabalhando na Globo.com.


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