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Take a look bellow and enjoy reading some words in portuguese:
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Ensaio sobre a cegueira de Woody Allen

6 comments // Nov 8th, 2008 // arte, design

Um dia comum seguindo a rotina de sempre. De repente, não enxergo. Se antes, imagem era tudo, agora não é nada. Então o som passa a ter cheiro e o vento, sabor. Os sentidos se confundem e mundo pára. O que está acontecendo? Seria o fim dos tempos?

O escritor português José Saramago em seu livro “Ensaio sobre a cegueira” (1995) que acabou virando filme esse ano, transformou tudo num mundo selvagem e hostil com uma epidemia de cegueira.
Crescemos e somos educados a valorizar a imagem. As cores, a roupa e a maquiagem parecem valer mais que o pensamento. Então de repente, esses valores morrem. Não enxergamos mais e passamos usar blusa xadrez com calça florida, tênis azul num pé e vermelho no outro. Se tiver calor, andamos nus. Afinal, quem vai ver? O que vale agora é a essência e o roteiro.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

É… Mas pra Woody Allen, o filme de Val Waxman, seu personagem em “Dirigindo no Escuro” (2002), ficou sem pé sem cabeça. Walxman descobriu que estava cego no meio das filmagens, segurou a onda para não perder a direção e se comparou com Bethoven, o compositor surdo. Entretanto, é preciso muito mais para, efetivamente, sentir a imagem e diferenciar cores com as mãos através da temperatura, e Allen sabia bem disso. Então, todo mundo percebeu que o diretor estava cego, o filme ficou esquisitão, e o sempre bem humorado, Woody Allen, transformou a história numa sátira hollywoodiana. Afinal, quantos fimes não parecem ter sido dirigidos por diretores cegos, ou melhor, como diria Allen, por “analfabetos cinematográficos”.

WOODY ALLEN EM “DIRIGINDO NO ESCURO”:

Os personagens de Saramago e de Woody Allen temeram a cegueira e dariam tudo para voltar a enxergar. Diferentemente de Val Kilmer em “à primeira vista” (1998), filme baseado numa história real. O personagem de Kilmer, entretanto, só descobriu que preferia a escuridão, depois de ver a luz do sol. Cego, desde a infância, teve a oportunidade de enxergar pela primeira vez após anos. Isso é possível porque existe um tipo de catarata, a congênita, que se desenvolve desde muito cedo, e graças a evolução da medicina, tornou-se possível tratar e curar essa doença.

Então, imagine pessoas com seus 30 ou 40 anos que, praticamente, nunca enxergaram na vida, tendo, finalmente, a oportunidade de ver! Algo totalmente desejável e que muitos considerariam um verdadeiro milagre divino! Sim? Não, e eu chamaria isso de “uma questão de ponto de vista”! A vida, assim como para aqueles que se tornaram cegos, se tornou um caos. Para quem sempre foi cego, a luz corta os olhos, as cores pertubam, o movimento desequilibra. Talvez, para esses, o filme de Woody Allen com combinações esdrúxulas feitas por Val Waxman fizesse mais sentido (estando cegos, é claro).

À PRIMEIRA VISTA

Trabalhar com programação visual me levou a valorizar ainda mais a imagem e o sentido de ver. Tudo se tornou visual e as cores, essenciais. O “ver”, associado à sociedade eminentemente “visuocêntrica” que vivemos, é o sentido mais estimulado. Muitas vezes, até esqueço que posso trabalhar e explorar os outros sentidos. Pela teoria da compensação, a deficiência visual aumentaria a capacidade dos demais sentidos, principalmente audição e tato. Assim, passar a enxergar ou tornar-se cego nos obriga a reinventar a vida.

Diante disso, proponho um desafio: Fazer design sem se peocupar com os olhos e explorar os nossos outros 4 sentidos. Ou, como diria um amigo meu, Marlon, explorar as “sensações organolépticas”.
Já pensou nisso? Afinal, vemos com os olhos, mas não só com eles.

JANELA DA ALMA


6 responses so far, want to say something?

  1. Rogério Pereira says:

    Olá, Mari,

    Fiquei surpreso e gostei bastente do texto que você escreveu. Parabéns e continue postando. Vou assinar o RSS.

    Abraços.

    Nov 08, 2008, 2:03 am
  2. Renata Aspin says:

    Bacana, Mari!
    Para uma excelente designer você é uma bela cega.
    Parabéns pelo texto.
    Beijão, Rê.

    Nov 08, 2008, 8:46 pm
  3. prill says:

    que espaço!
    vim indigada pela @maffalda e cliquei no Woody com medo de que você estivesse metendo o pau em cima da cabeça dele. não.. não… hiperligações: saramago, beethoven, woody, kilmer (lindo!), visão, visão do mundo, do corpo…
    um espaço cativante. parabéns :)

    até

    Nov 08, 2008, 1:53 am
  4. Érica says:

    Nas palavras de Bruno Munari:

    “Every facet of the design process has to maintain a relationship with the senses. When you confront an object/project, you’ve got to touch it, smell it, listen to it… ”

    foi um dos caras que conseguiu, na minha opinião, quebrar melhor a associação design-visão. Era um designer gráfico que conseguiu transformar seus projetos em termos multisensoriais.

    Nov 08, 2008, 8:53 pm
  5. marianne says:

    Obrigada pelos comentários!

    Adorei a frase do Munari: “Every facet of the design process has to maintain a relationship with the senses. When you confront an object/project, you’ve got to touch it, smell it, listen to it… ”

    Total sensação organoléptica.
    Lembrei que meu livro do Munari veio com algumas páginas em branco. (defeito de fábrica)
    Talvez eu tenha que usar poderes além da visão para ler as páginas.

    Nov 08, 2008, 1:22 am
  6. dan says:

    nossa, vc é incrível. além dos trabalhos lindos, achei muito bom esse texto. rss assinado!

    Nov 08, 2008, 6:41 am

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Olá, sou Marianne Abreu, designer de interfaces digitais e interativas, atualmente trabalhando na Globo.com.


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