Um dia comum seguindo a rotina de sempre. De repente, não enxergo. Se antes, imagem era tudo, agora não é nada. Então o som passa a ter cheiro e o vento, sabor. Os sentidos se confundem e mundo pára. O que está acontecendo? Seria o fim dos tempos?
O escritor português José Saramago em seu livro “Ensaio sobre a cegueira” (1995) que acabou virando filme esse ano, transformou tudo num mundo selvagem e hostil com uma epidemia de cegueira.
Crescemos e somos educados a valorizar a imagem. As cores, a roupa e a maquiagem parecem valer mais que o pensamento. Então de repente, esses valores morrem. Não enxergamos mais e passamos usar blusa xadrez com calça florida, tênis azul num pé e vermelho no outro. Se tiver calor, andamos nus. Afinal, quem vai ver? O que vale agora é a essência e o roteiro.
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
É… Mas pra Woody Allen, o filme de Val Waxman, seu personagem em “Dirigindo no Escuro” (2002), ficou sem pé sem cabeça. Walxman descobriu que estava cego no meio das filmagens, segurou a onda para não perder a direção e se comparou com Bethoven, o compositor surdo. Entretanto, é preciso muito mais para, efetivamente, sentir a imagem e diferenciar cores com as mãos através da temperatura, e Allen sabia bem disso. Então, todo mundo percebeu que o diretor estava cego, o filme ficou esquisitão, e o sempre bem humorado, Woody Allen, transformou a história numa sátira hollywoodiana. Afinal, quantos fimes não parecem ter sido dirigidos por diretores cegos, ou melhor, como diria Allen, por “analfabetos cinematográficos”.
WOODY ALLEN EM “DIRIGINDO NO ESCURO”:
Os personagens de Saramago e de Woody Allen temeram a cegueira e dariam tudo para voltar a enxergar. Diferentemente de Val Kilmer em “à primeira vista” (1998), filme baseado numa história real. O personagem de Kilmer, entretanto, só descobriu que preferia a escuridão, depois de ver a luz do sol. Cego, desde a infância, teve a oportunidade de enxergar pela primeira vez após anos. Isso é possível porque existe um tipo de catarata, a congênita, que se desenvolve desde muito cedo, e graças a evolução da medicina, tornou-se possível tratar e curar essa doença.
Então, imagine pessoas com seus 30 ou 40 anos que, praticamente, nunca enxergaram na vida, tendo, finalmente, a oportunidade de ver! Algo totalmente desejável e que muitos considerariam um verdadeiro milagre divino! Sim? Não, e eu chamaria isso de “uma questão de ponto de vista”! A vida, assim como para aqueles que se tornaram cegos, se tornou um caos. Para quem sempre foi cego, a luz corta os olhos, as cores pertubam, o movimento desequilibra. Talvez, para esses, o filme de Woody Allen com combinações esdrúxulas feitas por Val Waxman fizesse mais sentido (estando cegos, é claro).
À PRIMEIRA VISTA
Trabalhar com programação visual me levou a valorizar ainda mais a imagem e o sentido de ver. Tudo se tornou visual e as cores, essenciais. O “ver”, associado à sociedade eminentemente “visuocêntrica” que vivemos, é o sentido mais estimulado. Muitas vezes, até esqueço que posso trabalhar e explorar os outros sentidos. Pela teoria da compensação, a deficiência visual aumentaria a capacidade dos demais sentidos, principalmente audição e tato. Assim, passar a enxergar ou tornar-se cego nos obriga a reinventar a vida.
Diante disso, proponho um desafio: Fazer design sem se peocupar com os olhos e explorar os nossos outros 4 sentidos. Ou, como diria um amigo meu, Marlon, explorar as “sensações organolépticas”.
Já pensou nisso? Afinal, vemos com os olhos, mas não só com eles.
JANELA DA ALMA




Rogério Pereira says:
Olá, Mari,
Fiquei surpreso e gostei bastente do texto que você escreveu. Parabéns e continue postando. Vou assinar o RSS.
Abraços.
Nov 08, 2008, 2:03 amRenata Aspin says:
Bacana, Mari!
Nov 08, 2008, 8:46 pmPara uma excelente designer você é uma bela cega.
Parabéns pelo texto.
Beijão, Rê.
prill says:
que espaço!
vim indigada pela @maffalda e cliquei no Woody com medo de que você estivesse metendo o pau em cima da cabeça dele. não.. não… hiperligações: saramago, beethoven, woody, kilmer (lindo!), visão, visão do mundo, do corpo…
um espaço cativante. parabéns
até
Nov 08, 2008, 1:53 amÉrica says:
Nas palavras de Bruno Munari:
“Every facet of the design process has to maintain a relationship with the senses. When you confront an object/project, you’ve got to touch it, smell it, listen to it… ”
foi um dos caras que conseguiu, na minha opinião, quebrar melhor a associação design-visão. Era um designer gráfico que conseguiu transformar seus projetos em termos multisensoriais.
Nov 08, 2008, 8:53 pmmarianne says:
Obrigada pelos comentários!
Adorei a frase do Munari: “Every facet of the design process has to maintain a relationship with the senses. When you confront an object/project, you’ve got to touch it, smell it, listen to it… ”
Total sensação organoléptica.
Nov 08, 2008, 1:22 amLembrei que meu livro do Munari veio com algumas páginas em branco. (defeito de fábrica)
Talvez eu tenha que usar poderes além da visão para ler as páginas.
dan says:
nossa, vc é incrível. além dos trabalhos lindos, achei muito bom esse texto. rss assinado!
Nov 08, 2008, 6:41 am